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Fugindo dos Legumes


Ainda me lembro do tempo em que comer era algo considerado terrível. Quando os ponteiros do relógio de parede indicava que a hora da refeição estava chegando, muitas vezes, pensei em se esconder.

— Beterraba é bom pra um monte de coisas! — dizia mamãe, sem explicar o que era esse “monte de coisas.”

Eu ainda não conseguia alcançar o fogão; mamãe montava o prato do jeito dela. Muita beterraba, cenoura, couve e... quase nada de carne!

— Um dia você vai agradecer por ser uma criança saudável — ameaçava.

Não tinha nada contra os legumes citados, no entanto, o meu desejo de criança era por doces e carnes. Ao ver o prato repleto de legumes, a fome ia embora. Um dia, cheguei até a dizer que não estava com fome. O cheiro, vindo da cozinha, dizia que na janta, teríamos frango cozido com quiabo. Frango com quiabo é bom, mas eu tinha um certo receio de que no meu prato, só teria quiabo e nada de frango.

O tempo foi passando e, quem diria, mamãe parou de insistir com os legumes. Ótimo. Assim estava bom, comia legumes quando queria... Eu nunca queria legumes...

E então, me tornei adulto. Veio a primeira vez sozinho em casa, longe dos mimos da mãe e da ajuda do pai. Tive que preparar a minha própria comida. E agora, o que faria?

Pensei bem, lembrei que alguém, o antigo dono da casa, tinha feito uma horta nos fundos do quintal. Da antiga horta, restava quase nada, apenas couve. Mas já estava bom. Não deu muito trabalho. Couve refogada com ovo frito. Minha primeira janta. Então, me lembrei das vezes em que fiz careta, para os legumes preparados por mamãe.

— Quando se vive sozinho, qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, vira um jantar de gala, acredite — explicou minha tia.

Ela tinha razão.

Outro dia, senti que o meu estômago estava perto da nuca; a fome era grande. O bife não descongelava nunca! Na geladeira, um saquinho, com três cenouras, pareciam sorrir para mim. Enquanto o bife não descongelava, devorei uma cenoura inteira!

Chega um determinado momento da vida, que várias coisas começam a fazer sentido. Mãe sempre tem razão. Comer é bom. Ter um jantar de gala também é bom... E comer uma cenoura, enquanto a carne descongela, também é bom.





Obrigado pela companhia :)



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Até breve,

VANDER CHRISTIAN

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