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O Mendigo

A blusa já foi limpa e azul. Agora, está cinza, por conta da sujeira. Cinza como a cidade. O colorido já quase não existe. A sua casa pode ser qualquer lugar. Dentro de prédios abandonados é melhor, o frio da madrugada e a chuva não o atinge. Mas nem sempre é possível ficar em lugares assim, durante muito tempo. Então ele fica ali, próximo de todos, mas ao mesmo tempo invisível para as pessoas. Deve ser o seu cheiro, pouco agradável.

Hoje, porém, ele notou uma movimentação estranha nas ruas. Antes das nove, pessoas iam para todos os lados; uma cena incomum de se ver nas manhãs de domingo. As pessoas passavam por ele debatendo alguma coisa. Pareciam criticar alguém e ao mesmo tempo elogiar... O que poderia ser? Não demorou muito e ele descobriu o que era. Bastou ver a quantidade de panfletos se espalhar pelas ruas. Era a tal eleição.

Conforme as horas iam passando, mais pessoas saíam nas ruas e a quantidade de panfletos só aumentavam. Os panfletos exibiam diferentes rostos, todos eles sorrindo. Pareciam felizes.

Ele olhou para os panfletos de forma indignada. Estavam sujando as ruas! Uma vez ele ouviu da boca de um homem, que ele é que estava emporcalhando a cidade. O mendigo desejou encontrar aquele homem para mostrar os panfletos e dizer que aquilo sim estava emporcalhando a cidade! Mas no meio de tantas pessoas, o homem não apareceu.

O mendigo caminhou lentamente na mesma direção que as pessoas estavam indo. Avistou uma escola. Lá a quantidade de panfletos no chão era maior ainda. Ele ficou ali na calçada, observando... Do lado da escola tinha uma loja de acessórios para celular. De repente, um princípio de tumulto. Um jovem tinha roubado a loja.

— Provavelmente, aproveitou a brecha da lei, por causa da eleição.

O mendigo olhou para a mulher que dissera essas palavras. Ela e a amiga passaram por ele sem lhe dar atenção.

Então era isso. Havia uma brecha na lei por causa da eleição. O jovem roubou a loja. O mendigo se lembrou de certa vez ter tentado se refugiar da chuva naquela loja.

— Vai embora! Se você insistir aqui, vou chamar a polícia!

Ele foi. Tinha medo da polícia. Para ele não tinha brecha.

Dessa vez o dono da loja não ameaçou o jovem. Tinha a brecha na lei.

O mendigo ficou ali na calçada o dia todo. Sem entender muitas coisas. A festa da democracia acontecia diante dos seus olhos, mas quem participava da festa não via nada diante dos olhos, apenas festa. Em volta, centenas de problemas sem solução, que um dia alguém disse que resolveria.

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