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Tá Doce


Mais uma vez não teríamos a aula de inglês. Era a segunda semana que aquilo acontecia. Já estava ficando chato. Lembro que naquele dia, descemos para o pátio da escola e ficamos lá, separados em grupos, conversando e dando risadas, tudo para afastar o incômodo que a falta de um professor fazia.

Minutos depois, um fusca vermelho chegou fazendo barulho e parou de frente à escola. O fusca só chamou a atenção por conta do barulho, se não ninguém teria notado. Antes que pudéssemos ver quem estava chegando naquele fusca, a diretora pediu que retornássemos para a sala. Segundo ela, o novo professor de inglês estava chegando. Subimos. Uma expectativa grande começou a se manifestar dentro de nós, afinal teríamos um professor novo! O quadro de professores finalmente estaria completo!

E então, pela porta entrou a figura mais estranha que eu já vira. O homem deveria ter uns trinta anos, cabelos arrepiados e tingidos de vermelho. Carregava uma pasta preta nas mãos. A roupa que o sujeito usava era outro detalhe fora do comum: camiseta amarela e a calça composta por duas cores; marrom e azul. Parecia um palhaço. Complicado, mas tenho certeza que todos os meus colegas de sala chegaram a essa conclusão: o nosso novo professor de inglês, era um palhaço!

De fato, ele ensinava a matéria brincando. Mas brincando mesmo! Tirando sarro dos alunos, usando a dinâmica no seu nível mais avançado... E como aprendemos! Inglês nunca foi tão simples! Tão bom... O professor ensinava sem livros e sem encher o quadro com textos enormes... Com o professor de cabelos tingidos, os alunos estavam sempre olhando para frente, o professor não precisava cobrar a atenção deles...

Eu sentia prazer em ir para a escola, só para poder assistir mais uma aula do professor Tá Doce!

No intervalo, ele ficava na fila do refeitório, junto com os alunos. Era a maior bagunça! Ele disse uma vez:

— Aqui, no meio dos alunos é o meu lugar! Aqui eu me sinto um aluno novamente!

O professor Tá Doce, me ensinou que aprender não é só gravar o texto dentro da cabeça. Ele ensinou que aprender é guardar o texto e se lembrar dele, dali uns dois anos, três... A vida toda...

— Isso é aprender, Vander. Quando você grava um texto, provavelmente mês que vem você já terá esquecido.

Aquele professor, que ia para a escola de fusca vermelho, que tinha os cabelos da mesma cor do seu carro e que usava a calça com duas cores, recuperou a vontade de aprender de muitas crianças, enquanto lecionou. O professor Tá Doce espalhou a sua marca, que era como o seu apelido: Tá Doce.

Hoje Doce não leciona mais. Está em outro lugar. Sendo Tá Doce...

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