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Convite Especial

Atualizado: 18 de Mar de 2018



Estávamos no mês de julho, o inverno daquela época era diferente do inverno de agora; o frio castigava as nossas faces quando levantávamos cedo para ir para a escola. A rotina era sempre a mesma, não vou negar que aquilo me deixava entediado, de certa forma. Mas um convite especial, vindo de repente, mandou embora aquela chatice de viver a mesma rotina de estudante todos os dias.

— É aqui — disse o professor que eu apenas conhecia de vista, pois não tinha aula com ele.

Quando eu e o meu amigo entramos na sala que o professor abriu, nos vimos diante de uma biblioteca. Bagunçada, é verdade, mas ainda assim tinha jeito de biblioteca. Curioso, porque sempre que tínhamos uma pesquisa para fazer, procurávamos a biblioteca de outro município e deixávamos de lado a biblioteca da nossa escola. Talvez isso explicasse o motivo da bagunça dos livros.

— Quero deixar essa biblioteca arrumada. Em condições de receber os alunos, seja para fazer uma pesquisa, ou levar um livro para ler em casa — foi dizendo o professor.

Eu e o meu amigo ficamos as férias de julho inteira organizando os livros na biblioteca do colégio onde estudávamos. Catalogamos todos os livros e organizamos em ordem alfabética; separamos por gêneros e montamos uma carteirinha feita de papel cartão mesmo, para termos controle dos livros que os alunos levavam para casa. Não tinha computador, era tudo feito à mão. A lista dos livros disponíveis para leitura era enorme, preenchia quase um caderno de duzentas folhas inteiro. Mas era muito bom fazer aquilo.

Quando as férias chegaram ao fim, a biblioteca recebeu muitos alunos, foi uma novidade boa e saudável, ver a biblioteca funcionando. E foi assim todos os dias que seguiram... Eu e o meu amigo não ganhávamos nada para ficar ali, como bibliotecários, apenas o sorriso dos alunos e gratidão, junto com a amizade de alguns professores.

Hoje, a biblioteca Mario de Andrade — foi esse o nome que escolhemos para ela — assim como muitas bibliotecas por aí, está fechada. Não tem mais sorriso de alunos, nem gratidão, tão pouco a amizade dos professores; isso tudo deu lugar ao consumo de drogas e violência. Os livros estão espalhados por todos os lados, à espera que outro professor abra a porta para dois alunos e diga: É aqui.

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